HITORIAS QUE A HISTORIA NÃO CONTA 2º
Não me recordo porque razão nessa manhã de 24 de Abril não me dirigi ao Dondo, Onde estava sediado o centro de instrução dos grupos especiais e o centro de instrução da Defesa Civil dos Caminhos-de-ferro de Moçambique.
Vivia num dos melhores prédios da cidade da Beira não só pela localização mas pelo estilo de construção.
Era propriedade de um Chinês o belo imóvel de seis andares e 48 apartamentos, eu vivia no terceiro andar no que hoje se chama um T 3 que servia não só para mim mas para dar abrigo a algum amigo que pela cidade passasse.
No rés-do-chão havia de um lado o Serviço Nacional de Emprego e do Outro lado a Mexicana. Uma pastelaria que podia-se dizer do melhor em qualquer parte do mundo.
A primeira com portas controladas com células fotoeléctricas e um serviço fora de série.
Normalmente era lá que tomava o tal mata-bicho.
Nessa manhã fui muito mais tarde por volta das 10 da manhã. O Dr. Palhinha ainda lá estava e foi ele que me disse o que se passava.
Dr. Palhinha era formado em matemática, e por razões politicas lã foi parar a Moçambique como o então Zeca Afonso que nos fins de 60 lá nos buscava quando o ordenado já tinha voado na compra de soruma ou o tinha compartido com os seus amigos. Vi em primeira-mão alguns grandes êxitos do Zeca O que mais me cativou foi o tal do meu menino é de ouro, escrito na mesa da minha sala de jantar depois de um banho de banheira e esperando que a roupa se secasse, Pois o Pedro, (empregado lá de casa) tinha a lavado por estar em estado lastimável.
Não por tentar dar nas vista, mas por seguir uma linha de justiça, na minha forma de ser, consegui a simpatia de varias pessoas, que viam em mim não um militar a mais mas um homem que se orgulhava do que fazia e não fugia à responsabilidade dos seus erros.
Um dos pontos que mais pessoas me olhavam foi o problema dos padres holandeses.
Nessa altura ainda frequentava a igreja católica com uma convicção de cem por cento.
Certo domingo, como muitos antecedentes fui a missa. Não sabia que haveria uma cerimónia de promessas de um grupo de Escuteiros.
Quando o grupo se preparava para entrar na igreja com suas bandeiras e guiões, o padre que mal falava português, dirigiu a um miúdo que levava a Bandeira Nacional e disse = ESSE PANO AQUI NÃO ENTRA =
As pessoas olharam umas para as outras e a mim pegou-me o inferno. O que se segui poucos se lembraram, ate os bombeiros foram chamados para acamar os ânimos e limpar sangue.
Nesse mesmo dia tiveram de abandonar a cidade pois a coisa estava mesmo a crescer.
A minha relação com o Dr. Palhinha baseava-se na crítica de uma colonização de 500 anos de exploração por alguns, da igreja católica e da incompetência dos representantes do Governo português.
Sabíamos que a situação não podia durar para muito, a Frelime estava com grandes problemas económicos, e a União Soviética estava a dar as ultimas pois o que já tinha invertido nada ainda tinha recebido.
Tudo indicava pelas informações dos desertores da Frelime que estava em vias de se desmoronar pela falta de condições económicas.
A economia que ainda mantinha os guerrilheiros saída do interior de Moçambique, algum dinheiro e comida que as populações a força do medo compartilhava.
O exército da Frelime estava desfalcado.
Conhecíamos do plano de formar uma confederação de estados Autónomos depois da caída do Governo em que Marcelo Caetano, com seu consentimento e sabia-se que depois de uma reunião em que ele Marcelo teve em França com Álvaro Cunhal, Mário Soares e Cardiga concordaram, que as províncias ultramarinas passariam a ser autónomas durante um espaço de tempo indeterminado, até a sua auto-suficientes.
Almeida Santos redigiu os estatutos, que mais tarde só vieram a servir para a Madeira e Açores.
Palhinha estava feliz. Eu mais temeroso pois sabia que o que levara o 25 de Abril era o medo dos oficiais do quadro pois estavam em numero inferior aos milicianos e o não só o receio a morte como o de grandes problemas no seio de muitas famílias onde o adultério era notório.
Sepinola não era o mais indicado, pois tinha relações com quem o viria a trair Costa Gomes um dos maiores covardes que conheci.
A formação de governo com Mário Soares como ministro dos negócios estrangeiros foi o fim de um plano e um acerto de contas com a União Soviética